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quarta-feira, 29 de abril de 2020

Festival de cinema frânces Varilux


Estamos de volta para, finalmente, contar o que planejamos e deixar essa quarentena um pouco mais confortável! Estreia hoje o primeiro #VariluxEmCasa, uma iniciativa solidária patrocinada pela Essilor Varilux e pela Embaixada da França no Brasil e realizada pela Bonfilm com 50 filmes para você assistir de graça e direto do seu sofá! 🤩 Quase todos os filmes já passaram por edições anteriores do #FestivalVarilux, então é uma oportunidade maravilhosa para assistir os que não conseguiu e rever os que amou! ❤️ Todos os filmes estão disponíveis no Looke e, para conferir o catálogo, basta acessar www.festivalvariluxemcasa.com.br 😉🎬

Quem ilustra nosso poster nessa edição pra lá de especial são Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo no filme "Acossados", de 1960.


quarta-feira, 22 de abril de 2020

Cinema Novo - 57 filmes completos

CINEMA NOVO 57 filmes completos

57 vídeos 1.827 visualizações Atualizada há 5 dias


Compilada por Gustavo Spolidoro para a disciplina HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO da Especialização em Literatura Brasileira da UFRGS, Coordenada por Guto Leite. Eventualmente algum filme pode ser retirado do youtube e o link ficar indisponível. Sugestões são bem vindas. A lista de filmes inclui os mais reconhecidos do período e também alguns que servem ou tem referencial com os demais, seja pelo tema, seja pelo realizador.https://www.youtube.com/playlist?list=PL6a6a_pQNbmYdOVabw1NWIWXqURg7xOMn&fbclid=IwAR1TLdRytx2k7JYM1G6tHQ1quSbK_EbVBnJcvIhWaBx80_YHG5sxFKmME6w&app=desktop


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

COLUNA | PENSANDO NUM FILME... por Felipe Paludetti


“Aquarius”, um filme político

Aquarius é um filme político. 

Do mesmo diretor de “Som ao Redor”, “Aquarius” mostra o cotidiano da vida de Clara (Sonia Braga) que mora de frente para o mar, no prédio que leva o mesmo nome do filme, último prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. 

Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos adultos e dona de um aconchegante apartamento repleto de discos e livros, ela irá enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento. 

É evidente que existem contestações sociais no filme em momentos importantes, como na cena em que o arquiteto antagonista confronta a protagonista com o fato de ela, uma burguesa, ter a pele "mais escura" e ter conquistado essa posição social. Ou, ainda mais forte, a cena em que alguns personagens estão numa praça fazendo um exercício teatral de gargalhadas e dois ou três rapazes, negros, são inseridos na cena e se aproximam do grupo de pessoas. Provavelmente o diretor utiliza esses mecanismos de testar o pré-julgamento do espectador e fica visível o nosso próprio desconforto.

O conflito de classes também está presente no filme, isso é inegável, apesar de não ser o tema central dele. Clara, a protagonista, precisa cruzar o esgoto para passar da parte rica à parte pobre da cidade, para participar da festa de sua querida empregada na pequena laje. E não é à toa que é a empregada, negra, que em sonhos perturbadores rouba suas joias.
Todas essas questões sociais abordadas no filme acabam como pano de fundo sobre a gentrificação e o abuso do crescimento desenfreado de uma metrópole. 

Sonia Braga está incrível. Toda delicadeza, força, e teimosia de sua personagem cria um ar de identificação.

Aquarius com certeza fica entre os grandes filmes nacionais, ao lado de Central do Brasil, Que Horas ela Volta, Cidade de Deus e Tatuagem. Serve de pauta para várias discussões presentes em nosso cotidiano, além de causar estranhamentos que nem sempre estão expostos em nossas falas.

Filme: Aquarius
Direção: Direção Kleber Mendonça Filho
Distribuição: Vitrine Filmes
Lançamento: 1 de setembro de 2016
Página no Facebook: https://www.facebook.com/aquariusfilme/

segunda-feira, 5 de junho de 2017

COLUNA | PENSANDO NUM FILME... por Bruno Mussil


“Eu, Daniel Blake”: aproximações com aspectos contemporâneos do capitalismo líquido e flexível

O belo filme “Eu, Daniel Blake” do cineasta Ken Loach trás à tona a história de Daniel Blake (interpretado por Dave Johns), um senhor de 60 anos que sofreu uma grave parada cardíaca enquanto trabalhava, que o impossibilitou de realizar atividades que demandam esforço, segundo seus médicos, com risco de novas lesões cardíacas caso voltasse a trabalhar em sua dura profissão de carpinteiro. 

Viúvo, sem filhos ou parentes próximos, Daniel Blake deve sua sobrevivência ao Estado. Vive um drama constante e diário pelos duros caminhos da burocracia estatal para conseguir receber o seguro desemprego ou a aposentadoria por invalidez que lhe garante uma pequena renda mensal que mal lhe auxilia no pagamento das contas domésticas. Assim, nesses árduos percalços burocráticos, Daniel é constrangido, humilhado, e vê-se perdido numa nova era (a era informatizada, online e tecnicista) – uma era que deixa paralisado no tempo àquele que não se rende ao novo mundo computadorizado – na qual conhece a jovem mãe solteira de duas crianças: Katie (Hayley Squires). 

A emblemática figura de Katie que luta
pela sobrevivência de sua família 
Katie é uma figura emblemática. Mãe solteira, ela também precisa do Estado para garantir a sobrevivência de sua família num pequeno e velho apartamento doado em Newcastle. Desempregada e longe de sua família londrina, Katie mergulha na angústia de não saber o que o futuro lhe reservará segundo após segundo, dia após dia. Como consequência, Katie chega a prostituir-se para conseguir dar um pouco de dignidade aos seus filhos que, assim como Daniel e Katie, veem seu caráter sendo corroído (para citar Richard Sennett) frente aos desafios da marginalização característica do capitalismo contemporâneo. 

Tal angústia, citada acima, é em parte explicada pela estrutura moderna do trabalho que, desde nosso processo de socialização à vida adulta, nos leva a negar o fracasso e a possibilidade de sua ocorrência, como afirma Sennett “o fracasso é o grande tabu moderno (...) a literatura popular está cheia de receitas de como vencer, mas em grande parte calada sobre como enfrentar o fracasso” (SENNETT, p.141, 2005). 

O filme aborda o desespero de ficar face-a-face
com o fracasso somado ao descaso do Estado
Katie e Daniel Blake, consequentemente, desesperam-se ao ficarem face-a-face com o fracasso somado ao descaso do Estado para com as pessoas em condição desoladora – que Karl Marx (2015), se assistisse o filme de Ken Loach, facilmente identificaria como parte do Lumpemproletariado (indivíduos que fazem parte de uma massa de pessoas arruinadas, flutuantes, e sem rumo). 

Daniel Blake, portanto, é um filme de nosso tempo de incertezas: nosso mundo líquido, no qual todas as instituições que considerávamos concretas assumem a fragilidade e flexibilidade líquidas anunciadas por Bauman (2007). Com o Welfare State não foi diferente. O Estado do bem-estar social, tão aclamado durante o século XX por apresentar-se como a saída do capitalismo às sérias crises cíclicas que assolaram o sistema econômico mundial, também é colocado em xeque. Sua liquidez se expressa na incerteza e fragilidade das personagens perante o Estado burocrático e as exigências flexíveis do atual mercado de trabalho. 

Referências Bibliográficas
BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Zahar, 2007.
MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Boitempo Editorial, 2015.
SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: impactos pessoais no capitalismo contemporâneo. São Paulo: Record, 2005.

terça-feira, 25 de abril de 2017

COLUNA | PENSANDO NUM FILME... Por Sofia Cherto

Porque às vezes deveríamos prestar atenção nos que aplaudem ou deixam de aplaudir lá nos EUA
“Moonlight – Sob a luz do luar”


Barry Jenkins não ganhou o Oscar de melhor diretor em 2017, – mas deveria. Aquelas frases tão ditas, como “Não fazem nada novo hoje em dia” ou “Hoje, tudo é cópia” perdem o sentido frente a obras como “Moonlight – Sob a luz do luar”. A última exibição do Cineclube Darcy Ribeiro em parceria com o CAFFESP - Centro Acadêmico Florestan Fernandes (08/04) figurou um longa-metragem que prova a vastidão de potências ainda não exploradas no contexto audiovisual americano, tanto em termos de narrativa quanto de linguagem.

O filme é um estudo de personagem dividido em três atos. Momentos distintos da vida de Chiron, um jovem negro morador de Liberty city, uma comunidade pobre na Miami de 1980, são conectados por um complexo fio condutor: o endurecimento emocional do protagonista. Jenkins e Tarell Alvin McCraney (que escreveu a peça que deu origem ao filme, “In moonlight black boys look blue” – “Na luz da lua, garotos negros parecem azuis”) assinaram o roteiro e fizeram do que poderia ser um problema a potência da película. Magistralmente, escolheram tratar do tema principal de maneira verossímil e sensível através do desenvolvimento da relação de Chiron com três figuras centrais tão tridimensionais quanto ele: Juan (Mahershala Ali), traficante cubano que carrega o peso moral de seu ofício, Paula (Naomie Harris), mãe solteira do protagonista, cliente de Juan e dependente química, e Kevin (Interpretado, respectivamente, por Jaden Piner, Jharrel Jerome e André Holland), seu amigo mais próximo e com quem se envolve intimamente. Como os dois primeiros, este também vive um embate: Ou mantém suas relações com aqueles que oprimem Chiron ou arrisca-se para defendê-lo. 

Mesmo já dito tantas outras vezes durante o bem sucedido processo de divulgação do filme, se faz necessário reafirmar o quanto são raras as ocasiões em que tais temáticas são ovacionadas pela crítica, ou mesmo, conseguem chegar aos cinemas. Filmes que saem dos espaços e grupos geralmente retratados – leia-se: jovens brancos e heterossexuais de classe média – estão atraindo cada vez mais atenção da indústria audiovisual, obviamente, não ao ritmo que deveriam, e ainda com clara restrição temática. Apoiar projetos como “Moonlight” significa, não só uma oportunidade de entrar em contato com um universo cinematográfico ainda não explorado, mas a chance de pressionar comercialmente para o audiovisual brasileiro financiar a produção de roteiros nacionais que retratem de maneira tridimensional e coesa grupos não representados de maneira apropriada na grande mídia.

Acompanhar o sucesso de uma obra escrita e dirigida por “garotos” de Liberty city, estando em um país como o Brasil, é algo único. Justamente Miami, Flórida, terra prometida para determinados grupos sociais locais, é o cenário de uma trama que aborda as feridas da desigualdade de perto, sem deixar de trazer elementos universais que aproximam os tão idealizados Estados Unidos de outros países com problemas semelhantes. A complexidade do tecido social americano também aparece na equipe envolvida e no filme, abrindo outro precedente internacionalmente importante: Um dos sucessos mais estrondosos do ano não tem atores brancos.

A indústria audiovisual, como qualquer outra, segue tendências, mas em meio a essa discussão se faz importante lembrar que o triunfo de “Moonlight” vai muito além dos nomes que ilustram sua ficha técnica. É um filme bem escrito e imersivo com qualidade suficiente para sustentar-se enquanto obra inovadora, e consagrar Jenkins (assista seus outros filmes: “Medicine for Melancholy” (2008) e “My Josephine” (2003)) como um dos grandes diretores do momento. Não só pelo que sua trajetória pessoal representa, e pela história que resolveu contar, mas também, como é de se esperar de um bom filme, como ele o faz.

Em alguns momentos na história, substitui-se o som original de determinados acontecimentos por música clássica e o expectador vaga pela cena em uma experiência sensorial única que lembra o efeito conseguido por César Charlone na cena da galinha em “Cidade de Deus” (2003). Nestes instantes, nos vemos na cabeça do protagonista e a realidade se distorce pela emoção do personagem, não de forma a distanciar-se dela, mas de aprofundar a relação do expectador com o que está acontecendo. O fascinante jogo de cor e som não é mera demonstração masturbatória de técnica, como as piruetas de Sandra Bullock em “Gravidade”, mas sim, uma forma inteligente de conectar o expectador ao que realmente importa: o complexo, vivo, humano, autobiográfico, representativo e único, Chiron. 



sexta-feira, 24 de março de 2017

COLUNA | PENSANDO NUM FILME... Por Sofia Cherto


De que forma (r)existir?: “A fonte das mulheres” e a resistência à opressão em todas as esferas da vida

E se elas, que sempre disseram “sim”, passassem a dizer “não”? Essa é a premissa de “A fonte das mulheres” (La Source des Femmes), longa-metragem escolhido pelo Cineclube Darcy Ribeiro e pelo Centro Acadêmico Florestan Fernandes - CAFFESP para a primeira exibição de 2017, que ocorreu em março na FESPSP. Ambientado em uma vila fictícia do Norte da África, surpreende ao utilizar-se de seu contexto particular para tratar do relevante tema universal do direito de protesto.

Quando as mulheres, tradicionalmente responsáveis pela árdua tarefa de buscar água na distante fonte que abastece o vilarejo, se revoltam contra os homens que nada faziam enquanto elas se arriscavam, um clima de guerra civil é instaurado. 

Mesmo sendo uma tarefa arriscada, por tradição, as mulheres do vilarejo eram 
as responsáveis por buscar a água. 

Leila (Leïla Bekhti), uma jovem recém-chegada que se muda para casar-se com um local, é a protagonista do movimento contra a inércia e comodidade dos homens. Incitando suas companheiras a não aceitarem a tarefa que lhes foi imposta desde o nascimento, é ela, a estrangeira, aquela que se torna o principal catalisador para a revolta que desestabiliza a organização social do grupo, as hierarquias lá estabelecidas e a visão que aquelas mulheres, que nasceram para servir, tinham de si mesmas.

A greve, considerada um insulto à autoridade masculina e às escrituras sagradas, foi recebida com violência tanto no micro quanto no macrocosmo, e talvez seja este o grande trunfo do filme: destrinchar, de maneira semelhante a que Geertz define como o trabalho do antropólogo, as minúcias que se escondem dentre as várias esferas da opressão que sofrem as mulheres do vilarejo, e as diversas maneiras encontradas por elas de resistir.

Os homens, responsáveis pela interpretação das leis, utilizavam-nas sempre em seu benefício, buscando justificativas para manutenção do status quo e negando a suas mães, esposas e filhas, o direito à vida política e pública. Em um primeiro momento, restava às mulheres contrapô-los somente dentro dos domínios reservados a elas, o Universo privado dos hábitos de dança, música e da vida a dois, mas com o desenrolar da repressão não resta dúvida: por mais válidas que sejam essas ferramentas de manifestação, elas não são suficientes. Precisavam elas ler e interpretar os textos bíblicos para que conseguissem entender a história em seus próprios termos e legitimar sua busca por equidade e justiça.

Na busca pelo reconhecimento da própria existência, elas precisam encontrar novas ferramentas de manifestação.

“A fonte das mulheres” transpõe, com tridimensionalidade, questões que definem nosso tempo utilizando-se do embate de gênero como metáfora: é possível uma democracia plena quando alguns não tem controle do seu destino ou posição na hierarquia social? Como transformar tradições sem romper todos os demais traços culturais que compõem uma determinada sociedade?

Para não revelar mais sobre as formas de provocação utilizadas pelas revoltosas, utilizamo-nos do princípio por trás do filme para fechar este texto. A ideia de “diálogo” proposta por Paulo Freire, nos parece ser, em essência, o que procuravam essas mulheres e o que devemos promover enquanto sociólogos: com profundo amor pela humanidade e pelo mundo, a consciência do outro, em todas as suas singularidades, para além da mera tolerância.

Em resumo: Assistam este filme!


A FONTE das mulheres. Direção: Radu Mihaileanu. Produção: Luc Besson, Denis Carot e Gaetan David. 2h10min. Paris Filmes, 2011.